Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

Podia ser Shakespeare...

Tipo Romeu e Julieta.

Mas não foi.

Nem eu Julieta, nem o outro Romeu.

Ainda bem. Não houve tragédia.

Foi só "mais uma" da tresgues.

 

Passando a explicar...

Após terem saído de minha casa, os Senhores Biscateiros que a ela se deslocaram para arranjarem o que deveria já ter sido arranjado há anos - mas que se o tivessem feito há anos, provavelmente hoje, os Senhores Biscateiros, teriam voltado a fazer o arranjo e assim se ajudariam os Senhores Biscateiros a ganhar mais uns trocos, mas deixaria a tresgues de poupar o que poupou - eis que me preparo para limpar todo o pó deixado no ar, e não só, pelos Senhores Biscateiros. Vai daí, vou à varanda olhar a paisagem para relaxar antes de pôr mãos à obra, que ainda ia durar umas prazerosas horitas.

 

Nota: O tempo estava óptimo, até gosto de limpar o pó (quem diria), fazer arrumações e depois usufruir daquele belo efeito que produz em nós aquela boa sensação - à vista e não só - de tudo alinhadinho e, principalmente, a nosso gosto. Estava com tempo para o fazer, o que também é importante, porque gosto de fazer estes trabalhos sem pressões de qualquer ordem.

 

Voltando agora, meus amigos, à varanda, é aqui que começa a cena que bem poderia ser de Shakespeare, mas quis Deus que não fosse, vá-se lá saber porquê.

 

Após uns breves instantes de puro relaxe olhando o horizonte, acompanhada do "fifi  (rosicolor) deliciado com o Sol a bater-lhe nas belas penas depois do belo duche tomado e cantarolando como se não houvesse amanhã - devido ao Sol, à paisagem e à minha tão agradável companhia, ali mesmo na cadeira ao lado - resolvo fazer-lhe uma festa de despedida, levanto-me e dirijo-me à janela para entrar em casa e começar tão honrosa tarefa... feminina.

Dou um empurrãozito normal, costumeiro, para fazer deslizar a porta, vejo que não abre, volto a dar outro empurrãozito normal, costumeiro, para fazer deslizar a porta, vejo que não abre, volto atrás porque me distraí - já não me lembro com quê e a pensar que é capaz de estar na calha da janela uma pedrita que não a deixa deslizar como de costume - volto à janela, volto a dar outro empurrãozito normal, costumeiro, outro empurrão, menos normal,  menos costumeiro, mais um ainda menos normal, menos costumeiro, e outro, e outro, e  outro, e... meus amigos, como às vezes, para meu grande bem só raciocino em câmara lenta para as coisas menos boas, cheguei à grande e espectacular conclusão que EU estava devidamente enclausurada, no meio de uma varanda, com três cadeiras, três almofadas, duas mantas a arejar ao Sol e um "fifi" radiante, porque sua dona ali estava ao pé de si tão contente a ver o mar e... SÓ a uns reles três andares do chão, sem ninguém por perto, sem telemóvel (quem é que vai com o telemóvel relaxar para a varanda), nem nada!!!

 

Primeira reacção? Rir-me a bom rir para o "fifi":

- Tás tramado! Se não for eu, hoje ficas aqui a dormir ao relento para saberes, mais ou menos, o que é a vida de um passarinho normal.

Ele responde-me que sim, que era óptimo, que adoraria, o que depreendi pela sua volta costumeira de 180 graus, de cabeça para baixo, a olhar-me atrevidamente quando está satisfeito.

 

 - Então vamos lá ver o que se vai fazer. Vamos lá pensar demoradamente no assunto - E penso.

E cada vez me dava mais vontade rir. Já sabem que não sou normal. Graças a Deus e, quem sabe, à falta duma tal válvula desde que nasci.

 

Ah, mas estão a perguntar-me porque carga de água fico eu enclausurada na varanda?

Pois, precisamente porque os Senhores Biscateiros também arranjaram o fecho das janelas das varandas que, por acaso, nunca me lembro de estarem a funcionar em condições. E eu, sem querer, claro, fecho a janela por fora, e ela, a janela, não aquela da "menina com o seu cabelo ao vento que também não se vai dali embora... por outros motivos", mas aquela desgraçada de uma janela, que só se abre por dentro. Eu até sabia deste pormenor, mas este era realmente um pormenor que nunca me interessou minimamente na vida. E agora ali estava o pormenor a interessar-me ao máximo e a intrometer-se, como nunca, na vida de uma tresgues.

 

Há coisas assim.

 

Depois de pensar que naquele dia mais ninguém voltava a casa, que o telemóvel estava lá em cima da mesa - via-o lá, via! -  que a outra varanda do quarto ao lado estava ali de janela aberta, e mais do que isso, descaradamente escancarada, e que os Senhores Biscateiros só voltariam no dia seguinte de manhã, pensei então no Senhor Segurança, já ali no apartamento ao lado. Valha-nos isso. É por estas e por outras que é bom ter assim, já ali no apartamento ao lado, um Senhor Segurança. Se ele não me visse, ao fazer a ronda costumeira, eu far-lhe-ia chegar a minha ocorrência, de qualquer maneira. Aos berros.

 

Nota: Não é condomínio fechado - que por acaso detesto - é bem aberto mas, neste caso, tem segurança permanente de 24 horas, por outras razões logístias que aqui não vêm ao caso. O Senhor Segurança daquele dia é o mais novo por ali, o menos falador, talvez o mais tímido, mas mesmo assim, pensei estar com a "minha segurança em dia"!

 

Pois puro e errado pensamento.

 

Olho à volta, e ninguém. Como de costume. Vizinhança só ao longe. O que tanto me agrada.

Só pode continuar a agradar - penso - continuando a absorver a paisagem, o sol, o silêncio.

O silêncio. Ninguém. Ninguém. E o "fii" berrava... de contente.

Muito bem.

Resolvo tomar providências e logo se verá. Começo a bater com uma cadeira de madeira na parede. Páro. Chamo: Sr. Segurança, se faz favor! Repito, repito, repito, repito. Começo a bater com a cadeira de madeira na janela. Faz mais barulho. Sr. Segurança, se faz favor, podia chegar aqui! Repito, repito, repito. Olho o "fifi" que está a começar a ficar nervoso com a coisa. Páro. Falo-lhe: Olha, hoje durmo aqui contigo. Estou com uma certa sede e fome. Dás-me da tua água, das tuas sementes e se hoje ficares com mais fome, amanhã comes melhor. É assim a vida.

 

Há coisas assim.

 

Nos intervalos, descansava.

Descansava e olhava a  minha varanda do lado, de janela aberta e descaradamente escancarada.

Mas eu que tão bem passava ali para o outro lado.Mas quem é que diz que não?

Experimento. Ponho-me mesmo a jeito e com tão pouco lá chegava. Mas o raio das "expectativas negativas" transmitidas por outros, noutros tempos, sempre têm um certo efeito em nós. "Ah, e tal. Não se consegue. Ah, está feito nesse sentido. Ah, eu nunca arriscava." Enfim. Talvez não devesse correr esse risco, pensando bem naqueles que me querem bem, incluindo eu própria. Acho que desde que me conheço sempre me quis muito bem. Mas que aquilo era canja para mim, era!

 

Vejo um senhor de boné branco, lá ao fundo, limpando um jardim. Repito, repito, repito, mas o boné branco era já velho e, ainda por cima, surdo.

Descanso.

Tento partir a janela que se partiria se não a quisesse partir. Mas aquela é das boas, daquelas mesmo boas quando a gente não quer. Acho que é dupla. Se não é para lá caminha. Ou é de ferro. Pouco percebo de janelas.

 

Bom, não sei quanto tempo se passou. Mas eis que vejo o Senhor Segurança cá em baixo, em início de ronda.

Conto-lhe o que se passa e logo ouço:

Ah! Eu cá não passo aí. É muito perigoso!

- Mas eu não lhe pedi isso. Eu até o fazia, mas já que aí está, faça-me só o favor de ligar aos bombeiros. Eles trazem uma escada, sobem ali à varanda do quarto, que a janela está aberta... 

- Ah, mas os bombeiros... e tal... e demoram... eu ía pela porta... mas a porta é daquelas... e tal...

- Mas eu só quero, se faz favor que me ligue aos bombeiros...

Foi difícil convencer o homem. Há homens assim. Depois de convencido:

- Ah, não sei o número e...

- Eu tenho-o lá dentro, aqui não, mas ligue ao 118.

- 118?

- Sim.

Passados dez minutos:

- Disse o 228?

.......................................

Chegam os bombeiros. Três. Um mais novo, um do meio e o mais velho, pequenino e magrinho, enquanto os outros faziam perguntas, este já no ar: Eu vou já aí, por aqui. Grito eu: Não! Não faça isso. Com uma escada, ali ao lado, a janela da varanda do quarto...

 

Era da escada que eu gostava. Era assim que eu gostava.

Mas já não se fazem cenas assim.

Eu sei que não sou Julieta, mas pelos vistos já há poucos Romeus. À altura. De três andares. Nem escadas. E eu que até sou uma pessoa realista, com os pés bem assentes - neste caso, na varanda - ainda achava que podia haver.

 

Mas eis que, ajudado pelos outros e por mim, grande mulher que lhei a mão, ele transpõe a varanda do lado, dá dois murros de empurrão e a janela desliza, pouco suavemente, mas desliza e abre-se. É claro que eu, grande mulher, já tinha feito o maior e mais custoso trabalho - não me diz ele, o Senhor Bombeiro, mas digo-lhe eu. 

 

Há coisas assim.

 

Obrigada, Senhor Bombeiro.

 

É por estas e por muitas outras que eu não tenho podido aparecer por aqui. É que depois, ainda me dá a fúria pós-trauma e, para encanto do "fifi", que adora muito movimento e nada de monotonia, tudo desanda à minha frente. Vassoura, pano do pó, aspirador, esfregona..., só têm direito a pausa quando eu lhes dou autorização e já o "fifi" deixa cair a cabeça e pia baixinho, avisando-me que já vão sendo horas de um pobre pássaro se recolher debaixo das mantas.

É que amanhã é capaz de ser um novo dia.

Sem Julieta, sem Romeu, sem escada nem nada... mas outro qualquer dia, de outro qualquer clássico - ou original - na vida de uma tresgues.

 

PS: Isto foi no fim-de-semana passado e de lá até agora, só tenho coisas que me ralem. Como publicar este post, quando o queria "rascunhar".

 

publicado por tresgues às 22:50
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comentários:
De F a 28 de Janeiro de 2010 às 15:57
O Fifi devia estar feliz, né... também, não era para menos, com tanta agitação...
Não disse quanto tempo esteve enclausurada, é importante saber. O tempo que aguenta sem fazer grande alarido, uma pessoa que se diz não normal, difere e muito, de outra, que se acha normalíssima.
Já me ri, ao imaginar umas certas pessoas (as normais) numa situação idêntica ;)
A calma dá sempre bom resultado, não feche a porta totalmente, ao olhar o mar...
De tresgues a 28 de Janeiro de 2010 às 21:23
Quanto tempo lá fiquei, não sei. Para aí uma hora, duas, até ao desfecho final. Não contabilizei esse assunto. E não é que, de tão habituada, no fim de tudo, vou de novo relaxar e quase fecho, de novo, a porta!?

Nunca mais fecho a porta?
Mas não dizem que quando se fecha uma porta se abre outra outra ainda maior? Estas frases... às vezes... falham! Já lá tenho uma pedra para não deixar fechar a porta.

Ah! Por falar em pedra... Nos intervalos dos pedidos de ajuda, fiz uma obra de arte com uma pedra gira e um arame que estava em cima da cadeira do "fifi". Está já em lugar de destaque na sala, para mais tarde recordar!
De F a 29 de Janeiro de 2010 às 15:28
É isso... Fecha-se uma porta logo se abre uma outra maior. Deve ser a isso que chamam PCP (não, não é um partido, explico-me): P= permitir (damos a nós próprios a permissão de errar... afinal, somos seres humanos... - fechou a porta, porque se esqueceu que já não o podia fazer); C=construir (mãos à obra, na construção de algo de bom - com arame e uma pedra criou uma obra de arte); P= perspectiva (perspectivamos o como vai ser a partir daí - já tem uma pedra, para que não volte a ficar enclausurada na varanda).
De tresgues a 29 de Janeiro de 2010 às 18:03
Bem, estou sem palavras.
Amigos PSIs: Perspicazes, Inteligentes e Sabedores sao os que aparecem por aqui. Poucos, mas bons!
Porque eu, boa pessoa que sou, sou assim recompensada!
Bom fim-de-semana.

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