Quinta-feira, 4 de Março de 2010

A senhora que parecia que não queria ser linda

E pronto, já uma pessoa não pode elogiar. O Acatar terminou a viagem.

Com muita pena dele e, acredito, de todos os que o seguiam.

Mas olhem que não acredito nada nisto do: já não se pode elogiar.

As coisas acontecem. Ponto. 

E quem quer, tenta de novo e alguma vez há-de correr. Bem, claro.

A experiência negativa também conta.

 

E isto, fez-me lembrar uma cena interessante que observei um dia destes,

 

A propósito de eu não ter nascido normal, - apesar de só ter sabido agora - vou fazer um exame "cardio-lógico", também ele, pouco normal. Isto é, adaptado à minha pessoa. Por sinal, uma coisa muito bem feita e onde se vê o nosso coraçãozinho numa prova de esforço, sem esforço, ao vivo e a cores, com radioactividade e tudo. 

Quando marquei, perguntei do que constava. Fui elucidada de que não custava nada, só demorava muito tempo, que levasse um livrinho para ler, mas que só tinha de estar muito sentadinha e esperar que a equipa médica fazia "tudo o resto" -  avisando-me bem de que "não custa nada". O médico já me tinha dito o mesmo e eu, claro, vou fazer o exame na maior, na boa... Como queiram.

 

Tive a "sorte" de passar lá a tarde, do meio-dia às dezoito horas, com outros colegas vindos de todo o país. O exame é feito por fases. Vai-se passando da sala verde para a laranja, da laranja, para a outra e assim se vai passando o tempo. Ali se conta a vidinha toda, ou não, ouve-se a vidinha de todos, ou não. Eu, que adoro observar gentes, estava nas sete quintas.

Nem de propósito, esteve sempre num lugar à minha frente, uma senhora - não sei se mais velha, se mais nova do que eu - daquelas assim a dar para o loiro, com botas altas bicudas, saia com racha traseira e uma má cara que só ela.

 

Mesmo que fosse linda, era daquelas pessoas que parecia que não queria ser.

 

E começa a lengalenga da sua desgraçada de vida - cá para nós, nada de especial - as vezes que já desmaiara, as vezes que já ia indo desta para melhor, as vezes que não foi, as vezes que não foi mas podia ter ido, as vezes que já viu os outros a irem, ou os outros quase a irem e, alguns, poucos, lá lhe iam respondendo.

Reparando que a maioria de nós era a primeira vez que fazia tal exame, exultou de felicidade e lá vai de descrever "o que aquilo custa, meu Deus!".

 

A maioria das pessoas eram idosos e, alguns, mais da minha idade, mas que, de cada vez que a dita senhora pregava, cada um ia ficando mais branco do que já estava e mais amarelo do que os outros todos. Excepção para mim e para outra colega, pelos vistos, menos normal. Os mais velhinhos eram os que me davam mais pena. Ali estavam sozinhos a ouvir tamanhas baboseiras - os acompanhantes não podiam entrar - e, alguns, talvez pensassem que aquilo seria por estarem perto do fim. Digo eu. Não sei. Mas, às vezes, é assim e tive ainda mais pena desses, quando ouço a tal pregadora, muito contente por poder elucidar tudo e todos:

 

-Ai, eu já fiz em Santa Maria. Julguei que ia morrendo. É horroroso. Saí de lá em braços. Um médico de um lado. Um enfermeiro do outro. Julgava que ficava ali. Que já não...

 

E depois, e isto e mais aquilo... e outro, e mais o outro... Tudo da maior miséria.

E ia repetindo a tragédia, com uma expressão ainda mais trágica do que as suas palavras.

Eu já me começava a remexer, mas achei melhor continuar a ler o jornal.

Ouvi esta cena, cada vez que mudava de cena, isto é, de sala.

Alguns senhores homens, já prestes a desfalecer, com a torneirinha enfiada no braço, só olhavam para a torneirinha para tentar disfarçar o que lhes ia na alma, no corpo e na cara. Mas não conseguiam.

 

Felizmente, numa das salas, uma outra senhora que queria ser linda, tenta amenizar a situação dizendo-lhe:

- Ó querida, mas olhe que nem toda a gente reage da mesma maneira! Cada pessoa reage de maneira diferente.

 Resposta pronta:

- Ah, é? O outro que entrou a seguir, ainda foi pior. Os médicos julgavam que ele já não saía dali. Foi por um triz...

 

Pois é - às vezes dá-me destas anormalidades - e eis que, numa sala onde parece que todos vão ser enterrados vivos, mas quase mortos - incluindo a minha pessoa, por sinal, bem vivinha da silva - me dá um ataque de riso daqueles, que graças ao jornal e ao meu colega do lado - que me olha com um sorriso também daqueles de aprovação, deixando-me mais à vontade - lá consegui disfarçar.

Mal.

Porque a tal senhora, que mesmo que fosse linda, parecia não querer ser, olhou-me assim de esguelha, como quem diz: "Há-des lá ir, há-des..." ou "hás-de lá ir, hás-de...", para ela tanto fazia. Interessava era que eu soubesse bem, que os meus dias poderiam muito bem ficar por ali... ou pelo menos quase, quase, quase.

 

Entretanto, regressa uma senhora de uns oitenta e tal anos, já com a pior parte do exame feita e diz muito contente, tão contente, que nem vê que se senta na mesa em vez de na cadeira:

- Ah! Nã dei por nada! Até julgava que nã me tinham fêto nada! Ah, ah, ah...

 

A senhora que podia ser linda, mas que parecia que não queria ser, olha-a com um ar de matador em plena praça do Campo Pequeno - que aquilo é ali perto - e eu e o meu colega, mais uma vez, tentámos que ninguém nos ouvisse a conversa, rematando-lhe eu: "Olhe, aprenda, se não sabe já. Estas coisas não têm a ver com a idade... mas com a pessoa!" Só para parecer que não estávamos a prestar atenção à senhora pouco linda e que, afinal, só nos riamos da nossa conversa. Ele concordou. Também não estava ali para discordar, não é?

 

A senhora que parecia - o que vocês já sabem - saiu pois, do exame final, novamente em braços - bem simpáticos, por sinal - mas ainda tendo forças para me avisar antes de eu entrar, de que aquilo era mesmo assim, para logo depois pregar que em Santa Maria era "tudo nu da cintura para cima" e ali não, e não sabia por que razão.

Por fim, quando saio diz que "afinal, não somos todos iguais" - olhando timidamente para mim.

 

Depois de tudo passado, chegamos à última sala.

A senhora que podia ser linda, senta-se ao meu lado.

Continua a pregar, e uma senhora que diz ter setenta e muitos anos, responde-lhe:

- Olhe, tomara eu cá vir mais vezes. Era bom sinal. Mas já não devo cá andar muito, porque... blá, blá, blá...

E eu respondo à senhora dos setenta e muitos:

- Olhe que ninguém sabe de nada. Eu só há pouco tempo é que sei, por acaso, que nasci com menos "uma válvula"...

Gargalhada geral e, espanto do meu espanto, alguma coisa tinha mudado, porque a senhora que podia ser linda, também gargalhou!

De seguida, sai o último dos três senhores masculinos e alentejanos e bem dispostos, que nos deseja "tudo de bom" e acrescenta a rir: "Vocês sabiam, que tinham uma coisa espetada aí no peito? Eu não!" 

Eu olhei, também não tinha dado por nada e dei-lhe conta da ocorrência, para sua grande risada e dos restantes, ao que eu acrescento, quando ele abala definitivamente:

- Pronto, foi-se embora, o último alentejano.

Nova gargalhada na sala e, espanto do meu espanto, nova gargalhada da minha já referida senhora, que agora ficara com um pouquinho mais de vontade de ser linda.

Até que eu, não me contendo mais, digo baixinho

- Hum! A senhora há bocadinho estava era com medo. Agora está tão bem disposta...

Responde-me ainda a rir, mas estancando, logo que acaba de exclamar:

- Ah! Mas não gosto nada de me rir assim. Acontece-me sempre alguma...

Eu, volto-me para ela, só me faltando pôr os braços na cintura... (que sina, nunca me consigo conter!):

- Então quer dizer que a senhora nunca se ri para que tudo lhe corra bem?

- É. Não gosto nada de me rir assim... com vontade...

- E se não se rir, corre-lhe tudo bem?

- Tudo bem! Eu já sei!

E já com cara de senhora pouco linda.

 

.............................................

 

 

Ó gentes da minha terra, eu já tinha percebido algumas coisas.

Mas cada vez percebo mais.

E... só tenho coisas que me ralem.

Garanto-vos que eu nasci aqui e hei-de continuar, espero que, por muito tempo, a só ter coisas que me ralem, mas a rir, alto e bom som, cada vez que me apetecer, me der na real gana, com ou sem motivo. 

Até porque nem dou por isso.

 

E elogiar sempre que me apetecer.

Até porque nem dou por isso. 

.............................................

 

Sem ser de propósito, (?) ouvi um senhor prior de uma freguesia por aí, dizer às suas fiéis ovelhas que as "bens aventuranças" de uma pessoa vão, desde o "ser pobre", ao "chorar", passando pela "tristeza" e já me esqueci das outras, tal elas eram. Sem explicar mais nada e acrescentando que "quem muito ri, meus amigos"..., "quem muito tem, meus amigos"... "quem muito (...)  meus amigos"...

Tudo pouco... é que é! Para atrair o muito. Digo agora eu.

Eu desconhecia, mas a senhora devia ser desta freguesia.

A senhora que parecia que não queria ser linda.

 

Mas quer. Talvez mais do que os outros.

E cada um é como cada qual, but...

Deixem prá lá. BE HAPPY! Don't worry.

 

publicado por tresgues às 11:01
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comentários:
De Margarida a 4 de Março de 2010 às 14:22
:-)
De tresgues a 4 de Março de 2010 às 17:25
:)))
Gabo a paciencia para ter lido... tudo!
De Bibia a 4 de Março de 2010 às 21:57
Li, recordei e ri muito.
Beijo
De tresgues a 5 de Março de 2010 às 09:46
E não é que a senhora era mesmo parecida com o "boneco" do post!?
Menos linda, claro. :)
Bjo
Bom fim-de-semana

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