Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010

Sabes há quanto tempo...

(...) sabes há quanto tempo não me pegam ao colo?

Há tempo demais.

Já pensaste que somos bebés grandes? Que todos vivemos os nossos primeiros dias dentro de alcofas, mais ou menos pobres?

Todos fomos olhados com ternura por estranhos,

 

(tão querido o bebé)

 

E hoje ninguém nos olha, andamos sós nas ruas, cruzamo-nos sem amor nem afecto,

Uns pelos outros, passamos uns pelos outros com indiferença, magotes de bebés grandes que não têm colo há tempo demais.

Fomos belos um dia, acabados de fazer, à imagem e semelhança do criador

 

(dizem eles)

 

E depois, com o tempo, vamos deformando a nossa perfeição, ganhamos cicatrizes e rugas, como uma camisola velha, e deixamos de ser olhados com o sorriso das roupas acabadas de comprar. Somos atirados para o fundo de uma gaveta, com desprezo, ou para o fundo de um lar.

Mas fomos bebés, não vêem que fomos bebés?

Quando penso deste modo, sinto compaixão por todos os idiotas, aquela ternura que temos pelas crianças, aquela condescendência ingovernável.

Nas guerras, do outro lado da trincheira, ex-bebés atiram granadas para matar outros ex-bebés, de capacete diferente e armas apontadas.

Longe dos beijos das mães, dos colos dos pais, dos olhares de ternura dos desconhecidos.

E porquê? Sempre pela mesma razão: - Propriedade.

Percebes porque te digo que não me controlas? Que não te pertenço? Que não me pertences? Que ninguém é de ninguém? Nada é de ninguém?

Porque te amo e te quero ao pé de mim sem que tenha de te amarrar.

 

(Ricardo Leitão, Podes pintar os olhos de azul, Sextante Editora, Maio de 2009-1ª edição)

 

publicado por tresgues às 10:08
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comentários:
De amaria a 28 de Outubro de 2010 às 10:18
Adorei p texto..

Vou levar..espero k naõ te importes:)

Beijinhos
De tresgues a 28 de Outubro de 2010 às 10:28
Claro que não. Não é meu!
(Estou a brincar!!!) ;)
Desconhecia o autor. Foi jornalista e agora dedica-se à ficção, escrevendo novelas, séries, etc.
Este é o seu primeiro livro. Segundo as críticas uma revelação. Para mim também.
Bjs
De rodrigando a 28 de Outubro de 2010 às 14:32
Verdades que doem por serem tão verdades.
Se as pessoas percebessem, ao menos uma vez, que é assim mesmo que devemos estar uns com os outros livres, sem amarras, enquanto nos sentirmos bem ali.
Gostei deste texto.
De tresgues a 28 de Outubro de 2010 às 23:23
Nem entendo como se pode pesnsar/ser de outra maneira. Mas acontece. E muito. "E coitados passam a vida a fingir e fingem saber viver" - palavras que ouvi a alguém e que se aplicam, também neste caso, a quem assim pensa.

Boas conversas, então, para amanhã. ;)

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