Terça-feira, 12 de Julho de 2011

Cenas do quotidiano

1 - Numa loja bem antiga e tradicional de uma cidade do interior, entra uma senhora que pergunta:

Quanto custa? - apontando um novelo de linha.

Quer levar? - pergunta o dono da loja.

Não, eu só quero saber preço.

Mais do que irritado, encolerizado, responde o dono, mais ou menos o que se segue, mas com muito "melhor" retórica:

- Atão mas a senhora, aí toda "empreliquitada", só aqui vem saber o preço e não quer comprar nada? Não tem dinheiro para comprar um simples novelo de linha que custa 5 euros? (E lá disse, sem querer, o preço.) Isso é que era bom! Não admito que desconfiem do meu trabalho. E pode ir embora que também não lhe quero vender nada!

A senhora, quase de lágrima no olho:

- Eu tenho o direito de saber o preço. Tenho o meu marido paraplégico e eu estou desempregada.

E sai.

Acredito que não volte a entrar.

 

Triste. Para além de toda a antipatia. Muito triste o lugar onde é de mau tom saber o preço, o orçamento, o que lhe queiram chamar, antes de resolvermos pagar com o nosso dinheiro. Com o dinheiro de quem trabalha ou trabalhou. Isto para quem é sério e gosta de pagar a tempo e horas. E ainda se sujeita a ouvir: "Se não tem dinheiro, não tem vícios.", ou "Quanto mais têm mais forretas são.", etc..

Só resolvi e devolvi na directa porque o senhor até era conhecido de infância do meu pai (sim, que a mim sai sempre na directa):

- O senhor acha que é preferível não se informar sobre o preço, comprar e depois não poder pagar, como vemos por aí calotes aos montes de quem não fez contas à vida, desde pobres a ricos, começando pelo seu próprio país?

Ele?

Silêncio. 

Nós? Pobres? Lixo?

Enquanto assim for, sem dúvida.

 

2 - Para aligeirar, na mesma cidade, com o sinal verde, numa passadeira de peões, uma senhora idosa (80 ou mais) e desconhecida, pára de repente com o sinal quase no vermelho e volta-se para mim:

-Ó pá, onde é que comprou esse vaso?

Eu, no mesmo tom, mas com algum carinho entremeado de boa disposição, sempre andando:

- Ó pá, foi ali na praça!

Ela, amorosa, meio espantada, ainda estancada, mas já recomeçando a andar:

- Ahhh....

E o vaso era só este:

3 - Um senhor, dos tempos de escola do meu pai, referindo-se à minha pessoa (muito sério):

- Bolas, mas está mesmo bem. Até parece a mulher do seu pai!

 

4 - Chego a casa com o pai e uma senhora que está de visita à minha mãe diz-me (com ternura):

- Ó senhora dona Maria Tresgues, só aqui vim dizer à sua mãe o quanto gosto de si, pela sua maneira de ser, assim, sem postura nenhuma.

 

E depois chega a noite e uma pessoa dorme muito mais reconfortada. E descansada.

E o pai amanhã faz anos.

publicado por tresgues às 16:41
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