Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011

Não sou fadista de raça

Não nasci no Capelão (como a grande Teresa Tarouca), mas também canto (mal, mas canto) o fado que passa nas asas da tradição...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O meu gosto pelo fado vem de longe.

Mas não fosse o meu pai fazer das tripas coração para internar a sua filha no Sagrado Coração - pois na altura, menina que se prezasse não ia estudar para um sítio qualquer que não fosse de madres, freiras e conformes, onde todos, como muito bem diz Jorge Palma, acerca do "seu" colégio, fazíamos um esforço intensivo e continuado para nos inteirarmos de certos vícios e atitudes que, muito provavelmente, cá fora, nunca tinham passado de meros objectos de observação e, quem sabe, até de objectos de repulsa - mas adiante, não fosse esse facto, eu nunca tinha tido o prazer de gostar de fado. E este gosto foi instantâneo, forte e nunca mais se perdeu. Devo acrescentar que até essa altura, por volta dos meus dezasseis, dezassete anos, abominava (leram bem: abominava) fado.

Eis senão quando, acabada de chegar ao colégio em meados de Agosto, preparando-me para um novo exame de admissão, sou abençoada com uma serenata inesperada pela noite dentro, nem sabendo o que isso era. (A serenata). Prontamente, fui avisada pelas poucas que já estavam no Colégio que deveria retribuir a benção, caso gostasse, com um intensivo mas rápido abrir e fechar de luzes, pois as madres gostavam pouco desse acto contínuo pela nossa parte. Talvez fizesse mal às lâmpadas.

Escusado será dizer que, passado pouco tempo, eu era das primeiras a acender e apagar as luzes pois, ficando o meu quarto na parte da frente, bem por cima do pátio principal, eu achava que tinha essa tarefa bem nas minhas mãos. É que, para além de ser uma privilegiada pela localização do quarto, recebia todas as visitas das colegas que apareciam no meu, para melhor audição e, logicamente, visualização de todos os fadistas.

As serenatas continuaram, com vozes inconfundíveis - recordo ainda a do Manel Baptista - e chegaram a ser mais de três por semana, com muitos participantes, com capas e batinas pelo chão, durando, por vezes, mais de duas horas, com dedicatórias a todas nós e chegando mesmo a fazer-se também na parte de trás do colégio, para corresponder aos muitos pedidos das meninas... das traseiras. Resultado? Madre superior muito zangada, proíbe novas serenatas sem seu prévio consentimento. Todas achámos que a madre o que queria era ver muito de perto os fadistas.

Eu, já apaixonadíssima pelo fado - amor à primeira vista, como em quase em tudo na vida - e já sabendo imitar com todas as letras e sons condizentes muitos dos fados que ouvi, uma noite após o jantar,  e já depois dessa proibição, a irmã Maria Alice, caminhando sem destino a passear.... as meninas, perde-me de vista porque eu, desta vez, queria ser a primeira a chegar ao colégio. Já tinha tudo planeado, apesar de pensar que não iria correr como eu gostaria e como as outras me diziam que iria correr. Pois correu muito bem. Eis então que, chegada à frontaria principal, apelo à minha mais recente mas já profunda áurea fadista e numa imitação sentida, e de voz o mais grossa e afinada possível, ergo para o ar, nada mais nada menos do que... a bela Samaritana:

Famintas de serenatas, as respectivas luzes não se fizeram esperar, para meu grande espanto e para que, por curtos intervalos da minha áurea fadista, incrédula, eu limpasse já as lágrimas de tanto alto cantar e  de tanto baixinho rir.  E este facto acentua-se com a chegada das outras meninas e da irmã que as passeava. Acho que a freira fez de conta que não achou graça nenhuma, mas achou. Via-a rir quando voltou costas.

Com o passar dos tempos, muitas foram as vezes que ouvi e cantei fado, mesmo sem saber cantar. Mas com a mesma alma de então, com o mesmo carisma e sentimento daquelas serenatas, sei de cor muitos dos que ouvi e ainda outros mais recentes, desde a Lisboa à noite, ou passarinho da ribeira, a menina das tranças pretas, ou o fado do ladrão enamorado:

Obrigada a todos os que conseguiram que eu - antes abominando o fado - um dia, sem grande voz, até enganasse as luzes de um colégio inteiro.

Obrigada ao fado.  

publicado por tresgues às 21:02
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