Quarta-feira, 9 de Julho de 2008

Devemos sempre "voar". Mesmo sem asas!

 

Por volta dos meus quatro anos sonhava, muitas vezes, que voava.

 

Voava do cimo das escadas da casa da minha avó, onde ía passar as férias de Verão.

Voava do primeiro andar ao rés-do-chão.

Concentrava-me muito bem. Abstraia-me de tudo e de todos e lá ia eu a voar, suavemente, até ao rés-do-chão. Como só eu sabia fazer. Mais ninguém! Não batia "as asas"... Punha-me quieta, pernas juntas, braços esticados encostados ao corpo, direitinha. Elevava-me um pouco acima do chão e "lá vai disto"... 

 

Digamos que era mais uma espécie de levitação. 

Mas, para mim, eu voava. E pronto! 

Era bom. E era tão real que pensava ser, mesmo, verdade.

Não sabia que era um sonho.

 

Foi uma sorte nunca o ter experimentado acordada.

Estive quase. Mas, já na altura, regia-me por intuições.

E, essas, diziam-me que não experimentasse.

 

No entanto, como era tão bom e um feito tão extraordinário - que nunca vira fazer a ninguém - achei que devia partilhá-lo com alguém de confiança. Alguém que não achasse que me estava a gabar. Alguém que acreditasse em mim.

 

Assim, um dia, sem me conter mais - pois o sonho repetia-se e repetia-se -  contei "o meu segredo" a duas meninas que aprendiam a costura na casa da minha avó.

Eram das, trinta e muitas, que a minha avó ensinava aquelas "mais" minhas amigas.

 

Não acreditaram em mim.

As "parvas"! - pensei eu na altura.

Embora eu já adivinhasse que seria muito difícil alguém acreditar em mim.

"Mas, amigos são amigos, bolas!"

 

Chegaram a propor-me que o fizesse só para elas.

Respondi-lhes que não era assim. Sem mais, nem menos.

Em seguida, puseram duas cadeiras, a uma distância de meio metro uma da outra. Voltaram o propor-me que voasse de uma para a outra.

Ainda me pus em cima de uma. Era menos arriscado.

Mas respondi-lhes, novamente, que não era assim. Tinha de estar muito "concentradinha"... Porque, quando eu voava não havia ninguém por perto.

 

Acho que ficaram, realmente, como eu as achava naquela altura. Ficaram "parvas".

Mas "parvas" com a minha absoluta certeza de que voava.

Foram contar "o meu segredo" à minha avó!

Aprendi logo ali, com aquela idade, que às vezes mais vale estar calada!!!

 

Passados uns catorze, quinze anos, numa aula de Psicologia, o professor- dando exemplos de sonhos que decorrem de experiências reais -  explica-nos que, por vezes, quando as pessoas caem de uma escada abaixo, podem sonhar que voam, nessas mesmas escadas e/ou noutros sítios.

Muitas vezes desatenta nestas aulas fiquei, de repente, interessadíssima.

Contei logo a minha história.

 

Realmente tinha acontecido!

Tinha caído, anteriormente, desamparada do cimo daquelas mesmas escadas.

Caí de costas, redonda no meio do chão.

E recordo - tal como me confirmaram, depois - as minhas palavras apressadas, ainda no chão, no intuito de tranquilizar a minha avó que, em pânico, correu escadas abaixo a levantar-me:

 

- Vó! Eu não morri! Eu só tremi!!!

 

E tremia que nem varas verdes. Tal fora o susto.

 

Não sei se, posteriormente, o meu medo de "voar" tem a ver com este episódio de infância.

Sei que, pelo menos, duas das viagens que adorava ter feito, não fiz.

Uma delas - já reservada - porque, simplesmente, sonhei que o avião tinha caído.

 

Poucos percebiam - inclusivé, amigos e família - este meu receio.

Diziam não compreender."Tão destemida. Não entendo!"

 

Mas eu sabia que, quando chegasse a hora, o faria.

Acredito que há horas para tudo.

Muitas vezes, basta deixarmos correr tudo ao sabor do vento. Não interessa forçarmos os acontecimentos. Obrigarmo-nos a nada... Pelo menos em casos que não sejam assim tão urgentes - como este.

E como digo no meu perfil, devemos ir "vivendo, vivendo, desligando, desligando."

Chegará a altura. Quando estivermos preparados. Ou não. Mas chegará.

 

O meu baptismo de voo - sozinha - foi a conselho do meu pai.

Mais uma vez o meu pai a incentivar-me e a mostrar-me outros caminhos, segundo ele, mais rápidos, do Algarve para Lisboa.

Não foi mau. Até gostei. Muito.

 

Mas queria ter ido mais devagar.

Porque eu ainda não estava bem preparada quando fiz a minha primeira "grande" viagem.

Agora, as viagens tornaram-se banais. Sozinha. Excepção para Paris. Obrigada, fifi.

 

Mas, naquela altura, dadas as circunstâncias do momento, se a minha avó fosse viva eu ter-lhe-ia dito, de novo:

 

- Vó! Eu não morri! Eu só tremi!!!

 

E não foi do medo de voar. Ela saberia e entenderia.

O medo sabe afastar-se muito bem. Quando é preciso.

 

Ainda nunca fiz as tais viagens que tanto queria fazer. Por puro prazer.

Não sei quando chegará a altura.

As minhas intuições de sempre, ao serviço da minha pessoa, não costumam falhar. Mas, neste caso, ainda não se pronunciaram...

 

Hoje, mais logo, volto novamente a "voar".

Desta vez, vou muito contente!

Não vou sozinha e vou festejar os oitenta anos daquele que, apesar de rezingão como eu, me ensinou, na tal altura certa que, às vezes, precisamos de "voar" para demorarmos menos tempo a chegar aos sítios que mais queremos. 

 

Fiquem bem!

E se eu não aparecer tanto, por aqui, nestes próximos dias... Não se preocupem!

 

Acho que vos vou poder dizer:

-Eu não morri! Eu não tremi!

 

Vão ser só mais uns momentos que VIVI!!!

 

 

 

publicado por tresgues às 08:38
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