Segunda-feira, 22 de Outubro de 2012

Tanto mar

Ontem, numa esplanada, dizia-me um casal de alemães:

- Gosto muito do vosso espírito. São afáveis, faladores. Falam alto. (Adorei esta!) Riem-se. Gostam de se divertir. Passeiam muito pelas ruas (do Bairro, claro) quer de noite, quer de dia. Na minha cidade são diferentes. Espírito velho. Antiquados. Bisbilhoteiros. E vocês têm um clima! E o mar! O mar (...).

 

É mesmo. Tudo isso. Estive sempre de acordo. E rimo-nos a bom rir das impressões de ambas as partes. Quer nossa, sobre eles. Quer da deles, sobre nós. Que, aliás, coincidiam.

E sim, o clima, o sol e o mar. O que eles não dariam para ter o nosso clima. O nosso sol. E o nosso mar. 

E o que poupariam? Sabe-se lá.

 

 

PS1:
De uma das crónica  de João Quadros no Negócio On-Line:
"Os dados mais recentes do Instituto  Nacional de Estatística (INE) demonstram que o Pingo Doce (da Jerónimo Martins)  e o Modelo Continente (do grupo Sonae) estão entre os maiores importadores  portugueses." Porque é que estes dados não me causam admiração? Talvez  porque, esta semana, tive a oportunidade de verificar que a zona de frescos dos  supermercados parece uns jogos sem fronteiras de pescado e marisco. Uma ONU  do ultra-congelado. Eu explico.
Por alto, vi: camarão do Equador, burrié  da Irlanda, perca egípcia, sapateira de Madagáscar, polvo marroquino, berbigão  das Fidji, abrótea do Haiti... Uma pessoa chega a sentir vergonha por haver  marisco mais viajado que nós. Eu não tenho vontade de comer uma abrótea que veio  do Haiti ou um berbigão que veio das exóticas Fidji. Para mim, tudo o que fica a  mais de 2.000 quilómetros de casa é exótico. Eu sou curioso, tenho vontade de  falar com o berbigão, tenho curiosidade de saber como é que é o país dele, se a  água é quente, se tem irmãs, etc.
Vamos lá ver. Uma pessoa vai ao  supermercado comprar duas cabeças de pescada, não tem de sentir que não conhece  o mundo. Não é saudável ter inveja de uma gamba. Uma dona de casa vai fazer  compras e fica a chorar junto do linguado de Cuba, porque se lembra que foi tão  feliz na lua-de-mel em Havana e agora já nem a Badajoz vai. Não se faz. E é  desagradável constatar que o tamboril (da Escócia) fez mais quilómetros para ali  chegar que os que vamos fazer durante todo o ano. Há quem acabe por levar  peixe-espada do Quénia só para ter alguém interessante e viajado lá em casa. Eu  vi perca egípcia em Telheiras... fica estranho. Perca egípcia soa a Hercule  Poirot e Morte no Nilo. A minha mãe olha para uma perca egípcia e esquece que  está num supermercado e imagina-se no Museu do Cairo e esquece-se das  compras. Fica ali a sonhar, no gelo, capaz de se constipar.
Deixei  para o fim o polvo marroquino. É complicado pedir polvo marroquino, assim às  claras. Eu não consigo perguntar: "tem polvo marroquino?", sem olhar à volta a  ver se vem lá polícia. "Queria quinhentos de polvo marroquino" - tem de ser dito  em voz mais baixa e rouca. Acabei por optar por robalo de Chernobyl para o  almoço. Não há nada como umas coxinhas de robalo de Chernobyl.
Eu, às  vezes penso: o que não poupávamos se Portugal TIVESSE MAR !!!
 

 

(PS2: Muito Bom+)
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Boa semana.
publicado por tresgues às 10:26
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comentários:
De loengo a 23 de Outubro de 2012 às 11:25
Depois do que li, nem sei como começar o comentário... quanto mais dar-lhe um meio e um fim...
Com tanto mar... por onde anda ele, afinal???

De tresgues a 24 de Outubro de 2012 às 10:08
E nós sempre à espera de dias melhores.
Com tanto mar!

A Alemanha tem pouco mar, vende pouco peixe.
O que, diga-se de passagem, lá, sempre me faz muita falta.
(Sem generalizar, eles nem sabem muito bem comer peixe com espinhas. Filetes prá esquerda, filetes prá direita... mas só em último caso. )
De Xs a 23 de Outubro de 2012 às 15:05
Somos um povo com todas essas características!
Só é pena que a maior parte dos exemplares virem para a asneira!
De tresgues a 24 de Outubro de 2012 às 10:23
Em algumas situações, tudo depende do que consideremos que seja "asneira" ou... "portar bem".

Quando a asneira passa a exagero, claro, é um grave problema. Mas todos os povos têm os seus grandes exemplares. Alguns em menor número, sim.
E isso já é uma (grande) mais valia.

Bom dia.
Porte-se mal.Qb.
De antiego a 31 de Outubro de 2012 às 18:33
Fosca-se! Nunca vi povo que falasse mais alto que o Alemão.
De tresgues a 31 de Outubro de 2012 às 20:17
Tá brincando, fosca-se. Só pode.
Só se for por alguns sítios que eu nunca andei ou depois de umas quantas doses de cervejas tamanho XXL.
De antiego a 28 de Novembro de 2012 às 21:39
Todos os que eu conheci (à excepção de 2) falam alto para caramba.

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