Quarta-feira, 30 de Julho de 2008

O Santo António e eu - Eu e o Santo António!

 

O prometido é devido.

Mas preparem-se. A crónica vai ser longa.

 

Vou, então, contar-vos como começou a minha grande empatia com este santo.

 

Começou muito pequena, com uns oito anos, numa das vezes que os meus pais mudaram de casa.

Assim, a meio da minha terceira classe (hoje, terceiro ano), tive a minha primeira mudança de escola.

Fui transferida da escola feminina nº 27 de Lisboa, para a escola feminina de Queluz. Mais concretamente, para a escola que funcionava no Palácio de Queluz.

 

Não podia fazer-se a coisa por menos.

Sim. Esta educação que eu tenho já vem de muito longe. Como é evidente. :)

 

Foi então que, de boa aluna, passei - de um dia para o outro - a ser a segunda pior da turma. (Vá lá!)

 

Vinha de uma escola com um ensino bastante moderno  para a época, e passei para outra, de ensino muito tradicional, onde se papagueava, alto e bom som, antes de entrarmos para as aulas, os pronomes pessoais de uma ponta à outra, que a professora iria perguntar a seguir, uma a uma, a cada aluna.

Nunca tinha visto, nem ouvido, tal coisa. Não sabia o que era aquilo.

Mas, as novas colegas meteram-me tanto medo que eu aprendi-os, logo ali, sem saber para que serviam: "Eu, me, mim, migo; Tu, te, ti, tigo; Ele, ela, o, a, lhe;(...)"

 

Passei, também, a dar os erros ortográficos mais disparatados possíveis, a fazer a letra mais estranha que alguma vez fizera,  porque os ditados eram ditados, literalmente, a correr.

O braço doía-me, sempre muito, de tanto escrever.

Penso que cheguei, em vão - com todas as colegas a olharem-me de lado - a dizer à professora que não aguentava escrever mais e a pedir-lhe, por favor, se não podia ditar mais devagar.

Em vão, ficou bem dito. E ficou bem escrito!

Foi o que foi. Em vão!

 

Aquilo não podia continuar.

 

Devo dizer-vos que, desde muito pequena, perante as "adversidades"  da vida, nunca baixava os braços e, tentava, por todos os meios, mudar as situações. 

Aliás, irritavam-me as (e os) colegas - muito meninas -  que se armavam, ou eram mesmo,  mariquinhas.

Podiam descer na minha consideração numa escala de dez, imediatamente, para o um.

E aí, nada feito! Não tinham mais "amiga". 

Concordo que poderia, eventualmente, ser injusta. 

Mas, pensava que gente assim, não era boa companhia.

"Aquilo ainda se pode pegar" - lembro-me de dizer à minha mãe que, hoje, mo confirma.

E, convenhamos, se nos quisermos sentir "em baixo", nada mais fácil do que ficarmos cinco minutos ao pé de uma pessoa "em baixo". 

Tinha, então, alguma lógica. :) 

Continuando...

 

Ora, a situação, não podia manter-se por muito mais tempo. Eu já não dormia bem.

Sempre tinha gostado de ir à escola. E queria continuar a gostar.

Gostava de gostar de ir à escola. E não queria, nem podia ficar "em baixo" com a situação.

Os meus pais só fizeram o que a vida lhes pedia de momento: que mudassem de casa, naquela altura do ano.

Por isso, cabia-me a mim, fazer o que estivesse ao meu alcance!

A mais ninguém.

Mas o quê, valha-me Deus?

 

Foi aqui, então, que se fez luz.

Se o caso era tão difícil de resolver, só havia uma solução: a divina!

E quem melhor me poderia ajudar?

O Santo António.

Claro. Foi o eleito.

Já não me lembro bem porquê!

Talvez tivesse a ver com o facto de me terem ensinado a fazer-lhe pedidos quando perdia alguma coisa, enquanto continuava à procura e à espera que aparecesse: "Ó Santo Antoninho, Deus queira que apareça!"

E, sempre à procura, o objecto perdido lá aparecia, de facto.

 

Assim, numa noite mal dormida, mas altamente proveitosa, "ruminei" melhor o plano para por em acção, no dia seguinte.

Consegui ir sozinha para a escola, sem mãe nem colegas, (não me perguntem como) e atravesso Queluz inteiro, muito devagar, de olhos fixos no chão, pronunciando muito baixinho e sem pausas: "Ó Santo Antoninho, faz com que hoje não haja escola!"; "Ó Santo Antoninho, faz com que hoje não haja escola!" 

 

No dia seguinte voltaria a pedir o mesmo. Era assim o plano.

 

Demorei a chegar ao Palácio. A vontade era pouca.

Mas, eis que, ao longe, uma colega avista-me e grita-me:

"- Não andes mais! A professora faltou!"

A professora faltou?

A professora nunca faltava. Tinham-me dito.

Fui confirmar.

E... confirmava-se!!!

 

Ó meu rico Santo António, amanhã, vens comigo outra vez à escola!

 

Bem dito, bem feito.

No dia seguinte, repito a saga: "Ó Santo Antoninho, faz com que hoje, não haja escola, outra vez!" ; "Ó Santo Antoninho, faz com que hoje, não haja escola, outra vez!"

Ao chegar perto do Palácio vejo tudo num grande alvoroço, numa gritaria:

"- A professora já não vem mais. Esteve cá o inspector e foi reformada. Vamos embora para casa. Quando vier a nova professora, somos avisadas!"

 

Demorei algum tempo a recompor-me e a acreditar que tudo aquilo que estava a acontecer e que, afinal, também deixava as outras colegas contentes, era fruto do meu espantoso plano de acção: pedir ajuda ao Santo António!

Não contei a ninguém.

 

Aquele segredo ficou, durante anos, guardado entre mim... e o Santo António.

Saber para quê?

Ainda me haviam de dizer que eu tinha tido a culpa da professora ser reformada aos setenta e tal anos, quase que obrigatoriamente, pelo inspector... Nã, nã!!!

 

Escusado será dizer que veio uma professora novinha, com quem eu voltei a ser, de novo, a aluna que gostava de ser. 

Mais do que uma boa aluna, uma aluna com muita vontade de ir à escola!

Muito feliz, portanto, de novo.

 

Penso, ainda,  não ser preciso explicar-vos,  muito mais,  sobre o que representaria este acontecimento para uma qualquer criança de oito anos! Não sei. Para mim, chegou até hoje, como se tivesse acontecido ontem. 

 

Passado um ano, volto a socorrer-me dele, numa noite de Santo António, quando era para ficar internada, para uma segunda operação à perna que havia partido.

Era necessário tirar a chapa de platina com os quatro parafusos que me haviam posto.

Era preciso para ficar tudo bem. Era preciso porque eu estava a crescer.

Sabia que tinha de ser, mas sabia que, naquela noite, ainda não estava preparada.

 

Lembro-me de ir, pelo Rossio abaixo, de mão dada com o meu pai que, na outra, levava a malinha que me faria "companhia" no hospital.

Estava tudo marcado já há uns meses.

Calada, eu que tanto falava, voltava a pedir em silêncio, todo o santo caminho até ao hospital: "Ó Santo Antoninho, fazei com que hoje, eu não fique no hospital!"; "Ó Santo Antoninho, fazei com que hoje, eu não fique no hospital!"

 

Chegados ao local "indesejado", o meu pai fala, a enfermeira responde:

"- Ah! Mas como é possível! Não! Houve engano, com certeza. E não avisaram os senhores? É que, amanhã, é feriado e o «sotor» não opera. É melhor voltarem depois. Hoje pode ir para casa. E, olhe, quando vier, a menina não precisa de trazer mala. Vai no mesmo dia para casa!" 

 

"Yes! Yes!"  (Diria eu se, na altura, soubesse inglês... Mesmo que pouco...)

 

Infalível. Indescritível! 

Este Santo António era, sem margens para qualquer dúvida, o meu melhor amigo.

 

No caminho para casa, em plena noite de Santo António, devo confessar-vos que não sentia, sequer, os sapatos a baterem no chão. Era como caminhar em cima de alguma coisa fofa... Era isso. Caminhava nas nuvens!

 

Muitos anos mais tarde, muito provavelmente, com outros episódios bem sucedidos pelo meio - de que não me lembro - zanguei-me com o meu melhor amigo.

Penso, agora, ter sido injusta com ele.

Afinal, eu só lhe pedira - como adulta que já era - que fizesse o que considerasse ser o melhor para mim. 

Eu é que pensava que "aquilo" não era o melhor para mim. 

É bem provável que estivesse enganada. 

Nem sempre estamos certos no que consideramos ser, ou não ser, o melhor da vida para nós próprios. Só mais tarde - às vezes, muito mais tarde - o descobrimos.

 

Mas, ainda nesta fase da nossa zanga (minha zanga), dá-se outro facto curioso.

Não foi há mais de uns seis, ou sete, anos atrás.

 

Entro na esteticista e encontro toda a gente numa agitação anormal.

 

Devo dizer que a senhora esteticista é duma religião que, por acaso, não me agrada mesmo nada e que já tinha tentado, sem sucesso, levar-me a "aprofundar os meus conhecimentos religiosos". Mas o que me interessava era o seu trabalho. Com o resto podia eu bem - e depressa. ;)

 

Diz-me a senhora que, nesse dia, ainda não tinham feito mais nada do que procurar a chave com que abriram a porta, às sete horas da manhã. Eram já onze horas e nada. A polícia já fora chamada... Já ali estivera... Que havia por ali muita malandragem... Que viram uns rondar a casa... Que não havia canto onde não tivessem remexido...

Estavam todas - empregadas e dona - muito nervosas.

No meio da minha sessão, dentro do gabinete, tento tranquilizar a senhora e pergunto-lhe, com um sorriso:

 

- Já pediu ao Santo António?

 

Lançou-me um olhar pouco amistoso, de como quem diz - Ainda brinca com a situação? - mas só se ouvindo - "Por favor, Dª...!  - enquanto retirava da bancada, por trás da minha cabeça, mais uma série de bandas depilatórias e, quando, no mesmo instante, caem redondas no chão, com o maior estardalhaço possível, as "ditas cujas" chaves!

 

O silêncio foi total.

As empregadas vieram ver para crer.

A senhora viu logo ali. Não foi preciso deslocar-se mais.

E eu, ainda hoje, recordo este episódio com um sorriso muito maior do que aquele que fiz quando lhe perguntei:

 

- Já pediu ao Santo António?

 

PS: Segundo um estudo recente, a crença religiosa parece ser inversamente proporcional ao QI de um indivíduo. Registam-se, contudo, algumas excepções devidas a fortes pressões familiares ou sociais.

Não querendo que me considerem a excepção, devo dizer-vos, sinceramente, que não é este o meu caso.

Tenho um baixo QI? Não sei...

Mas também vos devo dizer, sinceramente, que não me incomoda mesmo nada que, daqui para a frente, o Santo António continue a ser o meu melhor amigo e que todos vocês, me passem a considerar, por este motivo, mais "burrinha" do que sou...

 

 

 

publicado por tresgues às 16:23
link do post | comentar

.mais sobre mim

.pesquisar

.Dezembro 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
29
31

.posts recentes

. Em...2016...

. Boas-Festas

. Não!

. O meu pica do sete

. As escolhas de tresgues

. Cenas quotidianas

. Coisas da vida

. As escolhas de tresgues

. As escolhas de tresgues

. Fifi, o malabarista

. Educação diferente. Porqu...

. Bom dia

. As escolhas de tresgues

. Coisas da vida política

. Fifi, o calhandreiro

.arquivos

.links

.subscrever feeds