Sexta-feira, 24 de Abril de 2015

24+1=25 (de Abril)

Excerto de "Abril mulher", CML, 1999:

 

Antes da Flor a Espera

Cansadas de esperar, muitas mulheres teimavam na espera.

Diziam adeus aos que iam para a guerra no Cais de Alcântara, partidos eles, partidas nós, o negro dos fatos das moças das aldeias, a aridez nos campos e nos lençóis mordidos nas noites desamadas, a face dos dias custosos, a ansiedade alongando o tempo. Dizer adeus, esperar os homens, chorá-los na ausência, carpi-los na morte, era parte do destino das mulheres.

Cansadas de esperar, muitas já nem esperavam. A curva dos dias sempre igual, as explorações redobradas que sofriam, no trabalho, na lei, na sociedade, na família, destino de mulher, de um povo dominado, o ser ainda mais dominada.

Aprisionadas, aprisionados, todos os que ousavam alterar o ritmo da submissão, num país, em si mesmo encarcerado num tempo crepuscular. (...) As mulheres, mais do que qualquer outro grupo, prisioneiras do silêncio, haviam desaprendido a palavra. O grito calado, doendo, dilacerante entre o querer e o poder. Entre a espera, que de tão longa era já desespero. que esperando desesperavam. E, no entanto, havia mulheres em movimento. Às vezes tantas. E havia movimento de mulheres. Decididamente, apostadas em abreviar o tempo de espera. Rasgando com mãos nuas, unidas mãos de mulheres,o tempo crepuscular que nos separava da manhã de Abril.

Outras, muitas também, esperavam sem ter consciência da sua espera. Viviam no seu país como que alheias. Reduzidas às quatro paredes do lar, nem sempre doce, quase nunca doce, o seu olhar não conhecia infinitos nem esperanças.  "(...) a mulher que está à janela só vê os muros das casas fronteiras", escrevia Maria Lamas, uma das protagonistas maiores da luta das mulheres.

As mulheres recolhidas em casa, vislumbrando à janela as casas fronteiras não sabiam que podia ser de outro modo. Mas de vez em quando uma estranha inquietação assinalava esperas inconscientes.

 

Depois da Espera a Libertação

Umas e outras vieram para as ruas depois de Abril. Muitas saíram logo de suas casas. Como aquela que levava cravos no regaço (...)

Relógio mulheres.png

 (foto daqui)

 

PS1: E hoje, com pena, ainda vejo mulheres à espera, sem esperança na libertação. 

PS2: Hoje é 24.

Amanhã, passado mais um dia é 25. Quem diria...

E portanto, nunca nos devemos incomodar. Ou ralar. Ou moer. Mas, sim, agir.

Quer dizer, mesmo que nos incomodemos, ou ralemos, ou moemos se não agirmos...

Agindo, (obrigada capitães!) se hoje é 24, amanhã pode ser, mesmo, 25. Caso contrário, até pode ser 25 no calendário, mas continuará a ser 24 nas nossas vidas. E como vêem, há aqui qualquer coisa que não combina. Não bate certo. E rala-nos. E moe-nos. E incomoda.

 

Bom (24+1=) 25 de Abril.

publicado por tresgues às 13:11
link do post | comentar

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 34 seguidores

.pesquisar

.Dezembro 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
29
31

.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Em...2016...

. Boas-Festas

. Não!

. O meu pica do sete

. As escolhas de tresgues

. Cenas quotidianas

. Coisas da vida

. As escolhas de tresgues

. As escolhas de tresgues

. Fifi, o malabarista

. Educação diferente. Porqu...

. Bom dia

. As escolhas de tresgues

. Coisas da vida política

. Fifi, o calhandreiro

.links

.subscrever feeds