Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Cão como nós

 

 Não era um cão como os outros. Era um cão rebelde, caprichoso, desobediente (...) um cão que não queria ser cão e era cão como nós.

 


(...) contraditório, oscilava entre a submissão e a revolta, a fidelidade e a independência, entre cão e não cão.

(...) - Este cão tem um problema, disse por fim o meu pai, está convencido de que não é cão.

 


Era uma das suas características, fazer ouvidos moucos, aparentar indiferença, fosse por espírito de independência fosse porque gostava de armar à originalidade.

(...) Mas era, também, um cão capaz do inesperado, como, de repente, levantar uma narceja.

Então o meu pai comovia-se:

- Este filho da mãe, podia ser um bom cão, é pena não estar para isso.

 


A mãe quando se zanga também não fala.

(...) O pai fica assim quando está preocupado. Ou como eu ou como os manos. É de família. Ou berramos muito ou então calamo-nos.

Assim ele estava. Como nós.

 


- Será que o cão tem espírito?, - perguntou-me o filho do meio

Olhei para ele surpreendido. E acabei por responder:

- Não sei sequer se nós próprios temos espírito ou se é o espírito que nos tem ou está  nós.

- É isso o que eu queria dizer. Olha para ele.

Era um fim de tarde de Agosto, o cão estava parado frente ao mar, o pêlo muito luzidio, a cabeça levantada, narinas abertas, sorvendo o ar.

- Ele está a cheirar o espírito. O espírito da terra, o espírito do vento, o espírito das águas.

 


Como nós eras altivo 

fiel mas como nós

desobediente.

Gostavas de estar connosco  a sós

mas não cativo

e sempre presente-ausente

como nós.

Cão que não querias

ser cão

e não lambias

a mão

e não respondias

à voz.

Cão

Como nós.

 

"Cão como nós" - Manuel Alegre - Dom Quixote.

 

Eu, às vezes, muitas vezes, também sou como o "Kurika".

O cão de Manuel Alegre.

Às vezes... sabe tão bem ser cão. 

Em Maio, em Agosto... Sempre que se pode.

Eu até podia ser uma "boa pessoa". Uma "pessoa boazinha".

É pena não estar para isso.

Convencida, como o "kurika?

Não... O "kurika" é que era como nós.

Desculpem. Como eu! ;)

 

PS: O livro lê-se "a correr" e deixa-me sempre bem disposta com a vida.

   

publicado por tresgues às 09:37
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