Sábado, 24 de Janeiro de 2015

A ti

Faz hoje 35 anos que, por esta altura, hora em que rascunho o que te escrevo, não sabia que, logo mais, por volta das 20,30h, mais coisa menos coisa, ia sentir as primeiras dores.

Estava previsto, segundo a médica, que nascerias no dia 25 de Janeiro mas, como sabemos, os dias podem ser antes ou depois. Mas, claro, dia 25 de Janeiro, às sete da manhã, já cá estavas, vestida e arranjada p'rá vida. Estivesse frio ou calor, um dia lindo ou nem por isso, era para nascer, nasce-se! Mesmo que não apetecesse muito e a pessoa, assim, fica logo despachada. Por acaso estava um dia espectacular, cheio de sol, como o de hoje. Ora pois que, assim nascia uma menina que, mais tarde, se tornaria senhora, mas sempre com ares de menina. E gira. Mesmo. Talvez saia mais ao pai do que à mãe. Não sei. Também não quero ser tão modesta... Mas sei que, mesmo nestas coisa de lamechices sou muito realista. Adiante. Desculpa, já sabes como sou, não é? Ao fim de trinta e cinco anos, era melhor que não soubesses. Perco-me nas conversas. São muitas as recordações e, como tu muito bem dizes, certos pormenores que não interessam nem ao Menino Jesus, interessam a esta menina que um dia, num dia 25 de Janeiro deste mundo foi, só, a tua mãe. Não sei se foi a primeira pessoa que viste no mundo, mas sei que o pai te viu primeiro do que eu. E, como sempre, foi ele que me tranquilizou: "Eu já a vi!"

O que é que se há-de fazer?

Uma pessoa tem as dores, e ele é que te viu primeiro. Era por isso que eu dizia que queria antes ter um menino. Já não havia aquela coisa do "Deus queira que seja uma cachopa para não ir à tropa" e, assim, terias mais chances... como pessoa humana.

Hoje, acho que estava redondamente enganada.

Também acho que te dei as ferramentas para que enfrentasses a coisa, mesmo assim gira e fofinha, com garras que ultrapassam qualquer macho. Machão. Mesmo que latino. (que hoje, alguns, também deixam um pouco a desejar... digo eu.) E o pai, feliz da vida: "Eu não preciso de me intrometer, tu fazes esse trabalho tão bem". Era verdade, mas, como sabes, não era preciso descartar-se tanto. A menos que quisesses começar a sair à noite, apenas com 12 anos. E ele: "Não senhor!" Para depois, no fim de meia hora "Com quem vais? Ele que venha cá a casa buscar-te para eu o cumprimentar. Depois eu vou lá buscar-te e tomamos um copo todos juntos". Eu gostava que assim fosse. Sempre preferi deixar-te ir, ou ir levar-te eu (e o Suzuki também gostava de te acompanhar, quando ias de camioneta sozinha) e saber onde estavas do que teres que me "omitir", "aldrabar" ou assim... Como acontecia com outras amigas tuas. Às vezes, pessoas, deviam pensar "aquela mãe e aquele pai não regulam bem". Acho que ainda hoje assim pensam. Era como aquela coisa de te darmos mesada e teres de escrever todos os débitos e créditos na agenda da Mafalda, ainda ali guardada no sótão: Saldo inicial - tanto; saldo do mês seguinte - tanto mais tanto; pai pediu emprestado para trocos - tanto; saldo do mês -tanto, menos tanto (andávamos a construir a casa, tu sabes); mãe precisou de tanto - saldo do mês - tanto menos tanto... Até que um mês: "Ó mãe como é que eu escrevo se vocês já me devem tanto?" "Então, escreves assim: mês seguinte - saldo negativo, menos tanto. Depois, conforme a mesada, vais amortizando." Ó que bela educação. Ó que bem educadinha! Bem, mas já me estou a elogiar outra vez! Que coisa! Não é minha intenção...

Agora a ti mesmo: És linda (tens a quem sair); és trabalhadora (não qb, mas muito mais que qb); sabes o que queres (também eu); arriscas (eu nem tanto, mas sempre estou lá a encorajar-te, não digas que não... é que não são todas as filhas que vão meses de mochila às costas por esse mundo afora... e a pessoa que é mãe passa vida a ler o EL Pinguino online e é só sismos por toda aquela terra, ó valha-me Deus), não te contentas com pouco (adoro), vestes bem, moderna e original (tens a quem sair... achas que me estou a gabar, não, pois não?) e por aí fora.

Hoje, depois de alguns anos fora e com os quais também eu alarguei os meus horizontes (obrigada, gostei muito), é com muita satisfação que te vejo chegar onde chegaste, que te vejo contente e feliz, carregada de trabalho e feliz, neste país que te viu nascer e te viu crescer e correr por esse mundo "ai, cai,cai, ai, cai, cai", sempre a correr e a rir, como quando começaste nos primeiros passos, e sempre que te sentias livre. (Pena teres nascido em Alvalade. Mas ninguém é totalmente perfeito... e, na altura, ainda não havia o hospital da Luz.)

Que mais? Isto está a ser ao correr da pena, percebes?

Já passaste muito. Demais. Mais do que muita gente...  da minha idade. Mas, como sempre esperei e sempre te disse, acho e agora sei, que tudo consegues. Além do mais, é para nascer dia vinte e cinco? Se é, então que seja logo cedo, que a vida mesmo que chegue à do Manuel de Oliveira, é muito curta, para tudo o que há de bom neste mundo para fazer.

Adoro!

Adoro-te!

E não, não é preciso estar sempre contigo. Não é preciso tanta mariquice, como dizes. Só preciso de te saber feliz. Sei que estás. Eu também. Caso contrário... seria o contrário. Também para mim, claro. Depois temos em comum muitos gostos. A decoração é um deles. O teu bom gosto, originalidade, sentido estético, criatividade... tal como o dos pais, é claro... Nã. Não me estou a elogiar! Que coisa!

 

Um grande beijo de mim.

Logo, às sete, queres que te acorde, como dantes? Não, estás cansada.

Envio-te esta carta por mail, está bem?

Depois vamos a outro dos prazeres em comum: a praia.  Que, mesmo de inverno, com este clima deste país, onde eu - sim, eu! - te fiz nascer, não é para todos... nem para todas.

(Estava a elogiar-me outra vez, naquela coisa do país onde te fiz nascer? Nã... Não dei por isso.)

Beijos e braços e até logo.

(Mesmo manca, eu vou... "ai, cai, cai, ai, cai,cai... mas vou. Contente e a rir.)

PS1: Esta (minha) recorda-me algo.

P1010907.JPG

PS2: Esta (tua) recorda-te algo? ;)))

P1010896.JPG 

publicado por tresgues às 17:42
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