Domingo, 9 de Novembro de 2014

Mais uma vítima

De violência doméstica.

Num artigo do Público, Daniel Sampaio fala deste flagelo e apela a que se tomem iniciativas como, por exemplo, as vigílias contra a mesma. Mas acrescenta que "É importante, todavia, fazer muito mais. Se o problema é agora mais conhecido, nunca poderemos esquecer que a violência psicológica é frequente e menos visível, contribuindo também para graves disfunções familiares, que se mantêm durante anos. A justiça, nestes casos, tem de ser mais rápida e eficaz, porque colocar a mulher numa casa de abrigo e deixar o agressor à solta não dá garantias de protecção." 

Sinceramente não percebo, sequer, porque não é ao contrário: o agressor numa instituição - onde também incluo a prisão - e o agredido à solta. Será que se deve ao facto dos juízes que decidem serem, na sua maioria, homens e os agressores também? 

Este ano está ser fatal. E só falar não chega.

Atitudes, ao mais alto nível, precisam-se.

Todos os dias nos deparamos no jornal com mais uma vítima. Isto é uma guerra aberta. 

E todos assistem chorando a morte. Calados.

As mulheres ainda com medo de falar - em pleno século xxi -  e os homens fecham-se, muitas vezes, em copas ou dizem barbaridades como "são coisas que acontecem quando uma pessoa está fora de si".  

É certo que antigamente a mulher era uma escrava nas mãos de um homem. E, tal como diz Daniel Sampaio, era isso que uma mulher, perdão, uma senhora, respeitada e bem casada deveria ser. Era isso que sub-repticiamente ensinavam nas escolas, por altura da ditadura: A boa dona de casa (trabalhar fora, nem pensar!) tinha de ser ♦ calma, paciente e compreensiva; ♦ digna e consciente dos seus direitos e da sua posição dentro do lar; ♦ colaboradora do marido em todos os momentos e circunstâncias; ♦ companheira e confidente dos filhos, boa vizinha, boa amiga e boa filha, mais capaz de dar ajuda do que a pedir; ♦ capaz de criar à sua volta uma atmosfera de paz e tranquilidade; ♦ preocupada acima de tudo pela felicidade da família e disposta a dar-se por ela.

Tudo muito bem, se a estas belas palavras não estivesse implícita uma teoria dita por outras palavras menos bonitas: mulher que é mulher (sempre com letra pequena), faça o que o marido fizer, ou disser, ouve e cala; cala e ouve; é agredida e consente; obedece (contra sua vontade) porque, acima de tudo, deve dar-se. Mesmo que ninguém se dê por ela. E cala. Como uma senhora. E não desabafa. Com ninguém. Há gente muito mal intencionada que lhe pode dar conselhos. Maus. E mulher só, ou divorciada... é uma depravada.

Se foi assim?

Ainda hoje é assim. 

Encontro mulheres que apontam o dedo a quem se divorcia, supostamente "só a pensar nelas,  sem pensar nos filhos", mulheres arrependidas, que dizem que se fosse hoje não o faziam, mulheres muito mais novas do que eu, com formação e altos cargos que, supostamente, até lutam pela igualdade dos direitos dos animais.

Mas também há os outros casos. Homens que se calam porque, no seu caso, parece muito mal, denunciar. "Serão uns bananas, com certeza".

Tinha um post antigo, guardado há uns tempos, sobre este assunto. Fui desencantá-lo: Divórcio pacífico - Sapo. Ao ler alguns comentários arrepiei-me. Com outros comovi-me. Como costumo dizer andam agora os homens mais jovens a pagar com a infidelidade de algumas mulheres o que os pais deles fizeram (fizeram? fazem?) com as suas mães. Injustamente, claro. Só gostaria de ver a auto-estima desta gente mais em cima, para não suportarem aquilo que não merecem. Aquilo que não fazem. Considero que viver assim, é acima de tudo, não se respeitarem a si próprios. A vida é curta. Há filhos, crianças que, como diz o artigo, sabem melhor resolver as situações do que muitos de nós, adultos. São menos complicados. Não havendo repressões, chantagens da parte dos pais, tudo corre pelo melhor. Ninguém merece viver contrariado e, por favor, deixem os companheiros livres para fazerem o que lhes apetece. Pois, por que não? Isso é que é amar! É respeitar o outro e a nós próprios. Sem dramas. Mas quem se sente bem mantendo um casamento de fachada? Gente que o faz também mantém outras fachadas? Algumas vezes, sim. Isso eu já aprendi. Porque as outras fachadas até são menos importantes do que esta. Por isso, mais fáceis de suportar. E deixem-se de palavras como filhos, amor, respeito, para o bem e para mal. Século xxi, seres inteligentes, que respeitam, sim, mas também querem ser respeitados. Por favor. Isso sim, é um exemplo para os filhos. Exemplos de valor e respeito pela vida de cada um. É a minha opinião. Depois de muito falar/ponderar e de não haver mais volta a dar. Como é evidente. É que, uma vez, ouvi uma senhora escritora que já vai no terceiro casamento dizer que, se fosse hoje, a mãe dela nunca a deveria ter deixado divorciar do primeiro casamento. Às vezes acho que não estou a ouvir bem! Mas ela pediu à mãe para se casar? Então e divorcia-se assim, sem mais nem menos, sem nada ponderar... de um momento para o outro?

 

E depois temos perguntas de homens:

- As mulheres são mais felizes?

Dou-lhe a resposta, Sr. José António. 

 - Não, não são. Aquelas que ainda vivem fora de época, na época das suas mães, lhes seguem o exemplo e os conselhos, porque até as admiram, porque foram grandes mulheres. (Sim. Concordo. Naquela altura.)

- Não. Não são felizes. Aquelas que vivem com medo. Aquelas que têm medo de tomar atitudes positivas. Para elas.

- Não, não são felizes. Aquelas que ainda ouvem homens sub-repticiamente fazer estas perguntas: As mulheres são mais felizes?

- Não, não são. Aquelas que já cá não estão para o confirmar.

E hoje foi mais uma que já não o pode confirmar.

 

PS1:

a) Apreensão. Uma morte por legionella. Nova conferência na TV. Acho muito bem.

b) Quantas mortes por violência doméstica já houve este ano?

 

PS2: Felizmente, eu, neta de uma avó com uma "filha ilegítima" e filha, portanto, de uma mãe filha do tal "pai incógnito" tive, da parte desta avó, um exemplo excepcional, um exemplo de Mulher fora do seu tempo, que muito passou - imaginem naquele tempo! - mas que foi pela vida fora uma Mulher (e como diziam, uma Senhora) que sempre lutou, feliz, como dizia, pela sua dignidade. Como pessoa. Só.

 

PS3:

- Homens, (maridos, namorados, juízes, governantes) não entendem esta dignidade de querer ser pessoa? Só?

 - Mulheres, (todas) é pedir muito?

 

publicado por tresgues às 12:40
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